sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Palhaço ( 19 de Julho de 2008)



A penumbra da noite envolvia o velho picadeiro. Pela fresta da lona entreaberta um poste solitário projetava sua luz sobre as bandeirolas coloridas e suas sombras entravam no palco numa dança lenta.
Na serragem estavam o que sobrou do espetáculo, alguns confetes deixados ali por algum palhaço desajeitado. Um pequeno pedaço de tule levado pelo vento rodopiava e levemente pairava sobre o chão antes de dar outro rodopio, tule este simples vindo de alguma loja de aviamentos baratos, parte da roupa da única bailarina do circo.
Nas arquibancadas de madeira já gasta pelo tempo, cheias de farpas, estavam jogadas aqui e ali algumas pipocas oriundas do lanche dos pequenos espectadores. E Eu ali sentado no meio do picadeiro.
Num banco qualquer, nas ultimas fileiras, há algumas horas atrás casais namoravam às escondidas. Eu via tudo. Era como se mesmo vazio, embaixo daquela lona ainda estivessem os aplausos, gritos, beijos, pipocas e algodões-doce. Melhor. Era como se à noite, todos os espetáculos se tornassem num só. Como se todos estivessem ali. Calados. Esperando. O salto do malabarista.
No Meio do picadeiro, sentado, estava um palhaço sozinho. Sua roupa toda colorida e cheia de babados. A peruca vermelha como se fosse faíscas de uma fogueira no auge de sua queima. A pele branca, pálida, fazia o palhaço menos humano, mais coisa. As sobrancelhas pretas, arqueadas, o sorriso falso, vermelho sangue. Sangue humano na coisa. De repente, uma lá
grima saltou dos olhos, correndo e lavando a pele branca. Um choro preso, abafado. Soluços. O palhaço chorava.

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